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Quanto as empresas brasileiras gastam com IA: o que mostram 8 meses de extrato

Estudo com 225 mil empresas conectadas por Open Finance: 8.763 compraram IA em 2026, somando R$ 19,5 milhões. Veja por setor, porte e estado.

Guilherme PassoniOut 2026

Quase toda estatística de adoção de inteligência artificial no Brasil vem de pesquisa declarada: alguém pergunta à empresa se ela usa IA, e a empresa responde. O problema é conhecido. Declarar que usa é barato, e "usar" significa coisas diferentes para cada respondente.

Resolvemos medir de outro jeito. Olhamos o extrato bancário de 225.438 empresas que conectaram suas contas via Open Finance por meio da Pluggy e contamos quanto elas efetivamente pagaram por ferramentas de IA entre janeiro e agosto de 2026. Não é intenção de compra nem percepção: é o que saiu da conta.

Dessas, 8.763 compraram alguma ferramenta de IA no período, ou 3,89%. Juntas desembolsaram R$ 19.539.269. A mediana ficou em R$ 155 por mês, e a empresa típica usa 1,56 ferramentas.

“💡 Todos os recortes deste estudo estão numa página interativa, com filtros que combinam porte, segmento, região e estado ao mesmo tempo.”

O crescimento são dois movimentos, e misturá-los leva à conclusão errada

De janeiro a agosto, o número de empresas comprando IA cresceu 5,2 vezes, de 1.239 para 6.413. O gasto total acompanhou, de R$ 549 mil para R$ 4,64 milhões no mês. Mas a mediana por empresa subiu bem menos, 49%, de R$ 112 para R$ 167.

Ou seja: quase todo o crescimento do total vem de gente nova entrando, não de quem já usava passando a gastar mais. São perguntas diferentes, e cada uma tem a sua métrica. Para medir adoção, conte empresas. Para medir intensificação, é preciso olhar só quem já estava lá.

MêsEmpresasGasto no mêsMediana por empresa
Janeiro1.239R$ 548.732R$ 112
Fevereiro1.465R$ 815.264R$ 112
Março1.801R$ 1.033.287R$ 118
Abril3.040R$ 1.847.616R$ 135
Maio4.014R$ 2.509.016R$ 145
Junho5.416R$ 3.501.230R$ 140
Julho6.492R$ 4.642.835R$ 151
Agosto6.413R$ 4.641.289R$ 167

Por que o último mês está sempre incompleto

Julho aparecer maior que agosto não é queda. Quando uma empresa conecta a conta bancária, a Pluggy puxa o histórico dela, então um mês continua crescendo por semanas depois de medido. O mês mais recente está sempre incompleto e pode subir cerca de 3,5%. A regra de leitura é seguir a curva, nunca o último ponto isolado.

A coorte: as mesmas 918 empresas, comparadas com elas mesmas

918 empresas já compravam IA em janeiro e continuavam comprando em agosto. Como o grupo é fixo, o crescimento da base conectada não interfere no resultado. É a medida mais defensável do estudo, e a resposta direta a quem perguntar se descontamos o crescimento da própria base.

IndicadorJaneiroAgostoVariação
Gasto mediano por empresaR$ 113R$ 312+176%
Gasto médio por empresaR$ 505R$ 1.274+152%
Provedores por empresa1,371,67+22%

O que cada empresa da coorte fez

Dentro da coorte, 58,8% aumentaram o gasto, 23,7% mantiveram e 17,4% reduziram. Em número de ferramentas, 33,2% adicionaram alguma, 57,4% ficaram com as mesmas e 9,4% cortaram. Entre quem entrou e ficou, a direção é clara: o orçamento de IA sobe.

O que a empresa faz pesa dez vezes mais do que onde ela fica

Este é o achado mais forte do estudo. A adoção varia dez vezes entre setores, de 10,55% em edição de livros e jornais a 1,05% em serviços financeiros. Entre as cinco regiões do país, a diferença não chega a 1,5 vez. E entre os portes, de micro a grande, fica em 1,1 vez.

Classificamos pela divisão do CNAE, o segundo nível da tabela oficial, e não pela seção, que é o nível acima. A diferença importa: "informação e comunicação" junta desenvolvimento de software, com 7,11% de adoção, e rádio e televisão, com 2,22%. Agrupados, os dois viram um número que não descreve nenhum dos dois.

SetorUniversoCompram IA% que compraMediana por mês
Edição de livros, jornais e revistas9299810,55%R$ 137
Portais e tratamento de dados2.15921610,00%R$ 365
Publicidade e pesquisa de mercado6.9526248,98%R$ 198
Advocacia, contabilidade e auditoria13.3891.1588,65%R$ 158
Serviços de TI e desenvolvimento de software11.6558297,11%R$ 462
Comércio varejista38.4249882,57%R$ 118
Transporte terrestre4.987631,26%R$ 120
Serviços financeiros2.859301,05%R$ 650

Três leituras que o nível agregado escondia

A primeira: escritórios de advocacia, contabilidade e auditoria são o maior grupo comprador de IA do estudo, com 1.158 empresas, à frente do próprio desenvolvimento de software, com 829. A segunda: publicidade adota mais que software, 8,98% contra 7,11%. A terceira: serviços financeiros tem a menor adoção de todas e o maior gasto mensal, R$ 650, mais de quatro vezes a mediana geral. Poucos entram, e os que entram entram pesado.

O porte, ao contrário do que se espera, quase não decide quem adota. A taxa vai de 3,82% entre micro e pequenas a 4,23% entre médias e grandes. O que muda é o valor: a mediana sai de R$ 116 no MEI para R$ 276 na média ou grande, e a permanência sobe de 3,05 para 3,56 meses.

“💡 A tabela completa tem 35 setores e 28 estados. No material interativo dá para cruzá-los e pedir, por exemplo, as métricas de um MEI catarinense do comércio varejista.”

Quem fica é quem paga

Contamos em quantos dos oito meses cada empresa comprou IA. A distribuição é muito desigual, e o dinheiro está concentrado nos fiéis.

755 empresas compraram nos oito meses. São 8,6% das compradoras e respondem por 29,8% de todo o gasto. No outro extremo, 1.920 compraram num único mês: são 22% do total e representam 4,4% do dinheiro.

E a mediana sobe junto com a permanência, de forma monotônica: R$ 114 para quem comprou um mês, R$ 177 para três, R$ 225 para cinco e R$ 315 para oito. Os fiéis não são só mais numerosos no acumulado, eles gastam quase três vezes mais por mês.

A OpenAI é mais experimentada. A Anthropic é mais mantida.

Ao longo dos oito meses, mais empresas passaram pela OpenAI (5.261) do que pela Anthropic (5.183). Em agosto a ordem se inverte, e o motivo é retenção: a Anthropic segurou 72,9% de quem entrou, contra 67,3% da OpenAI.

No dinheiro a distância é maior ainda. A Anthropic responde por 52,2% de todo o gasto e a OpenAI por 25,1%, menos da metade disso, mesmo tendo atraído mais empresas. É a diferença entre ser testada e ser incorporada.

Provedor% do gastoJá usaramUsavam em agostoRetenção
Anthropic52,2%5.1833.78072,9%
OpenAI25,1%5.2613.53967,3%
Lovable8,6%97159361,1%
Cursor4,4%38119350,7%
Manus3,7%39214837,8%

Ferramenta que não vira rotina não volta

Nas ferramentas menores a retenção separa ainda mais. O Lovable segura 61,1% de quem experimentou, o Manus apenas 37,8%. Ferramenta de IA que não entra na rotina em poucos meses tende a não voltar.

A segunda ferramenta não soma, multiplica por quatro

Olhando a foto de agosto, 71% das compradoras usavam uma única ferramenta, com mediana de R$ 115 por mês. Quem usava duas pulava para R$ 462. Três, R$ 1.089. Quatro, R$ 2.210.

O salto da primeira para a segunda não é o preço de uma assinatura extra. É o sinal de que a IA saiu do teste de uma pessoa e virou processo da empresa: alguém decidiu que vale pagar por mais de uma, e o uso passou a justificar plano maior.

A concentração acompanha. 62,8% das empresas gastam menos de R$ 300 por mês e respondem por 11% do dinheiro. No outro extremo, 142 empresas gastam mais de R$ 5 mil e respondem por 34,5%. O 1% maior concentra 23,6% sozinho.

Onde este número não serve

Toda medição tem borda, e as deste estudo são conhecidas. Vale deixá-las explícitas.

  • A base é a rede conectada da Pluggy, não o Brasil. Não é amostra representativa do país, e nenhum número aqui deve ser lido como "% das empresas brasileiras".
  • 3,89% é piso, não medida. O universo inclui empresas que conectaram apenas conta corrente, sem cartão, e quase toda assinatura de IA é cobrada no cartão.
  • O Google ficou de fora. Ele fatura a assinatura de IA e o armazenamento em nuvem com exatamente a mesma descrição no extrato, e só o valor separa as duas. Separar seria chute. Por isso o número de provedores por empresa também é piso.
  • O último mês está sempre incompleto, por causa do histórico que entra retroativamente quando uma empresa nova se conecta.
  • Grupos com menos de 30 empresas compradoras não servem para citação: com amostra pequena, a mediana oscila com um único caso.

Do lado positivo, a apuração não depende de ninguém responder nada. Transações deduplicadas por CNPJ, dia, descrição, moeda e valor, porque o mesmo cartão conectado por dois clientes aparece duas vezes. Excluídos IOF, estornos e pagamentos de fatura. Porte, setor e estado vêm do cadastro público de CNPJ da Receita Federal, cruzado localmente, com 99,93% de correspondência. Tudo agregado: nenhum CNPJ, nome de empresa ou transação individual aparece no estudo.

O que isso diz sobre Open Finance

Vale registrar como este estudo foi possível. Nenhuma empresa respondeu a um questionário, e nenhuma planilha foi preenchida à mão. O dado já existia, no extrato, e só precisou ser lido e organizado.

É exatamente o que a infraestrutura de Open Finance faz pelos nossos clientes todo dia, em outra escala: ERPs, sistemas contábeis e aplicativos que leem as contas dos clientes deles para conciliar, categorizar e iniciar pagamento, usando os Conectores de Dados. Medir gasto com IA foi só um uso incomum de uma capacidade que já está em produção.

“💡 O material completo e interativo traz os 35 setores, os 28 estados, a curva mensal, a permanência, os fornecedores e a metodologia detalhada, com filtros cruzados.”

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